22/7/2016 16:48:22 -  A hora da verdade: o que o laudo revelou para Paula?

Nos textos anteriores conhecemos Paula, uma mulher de 42 anos que descobriu um nódulo em um de seus seios durante o autoexame em conjunto com a mamografia de rotina. Após buscar ajuda médica, ela passou por uma série de exames, incluindo a biópsia, para a retirada de uma amostra do nódulo. Esse fragmento de tecido passou por diversos processos químicos para ser preservado e preparado para a análise de um médico patologista, o profissional do diagnóstico. Agora, é a hora da verdade.

Depois de sua extensa busca na internet sobre Patologia, Paula sabia que, se fosse confirmada a presença do tumor na biópsia, o especialista iria listar todas as características deste tumor para auxiliar no entendimento de sua agressividade. No laudo anatomopatológico emitido deveria constar se há ou não algum tumor na mama, seja ele benigno ou maligno (carcinoma) e quais as características microscópicas deste.

Mais do que isso, esse laudo informaria características importantes como tipo do tumor, o grau histológico (que estima o grau de similaridade com as células normais da mama e auxilia na medida da agressividade), a presença ou não de invasão dos vasos linfáticos e sanguíneos, a invasão de linfonodos da axila pelo tumor e até mesmo se esse nódulo expressa proteínas como os receptores hormonais de estrógeno e progesterona, além da proteína HER2.

Diante desta lista extensa de características do tumor e de outros dados clínicos, como a idade e a existência ou não de outras doenças crônicas, o oncologista pode determinar qual a combinação de tratamentos é mais adequada para a paciente.  Com esses dados, ele poderia decidir se o câncer de mama pode ser tratado com cirurgia e uma complementação de radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia e terapia anti-HER2.

Isso é fundamental porque nem todas as pacientes receberão todas estas modalidades e a combinação final vai depender do que foi observado no tumor.  Pacientes com tumores pequenos, localizados apenas na mama, com poucos sinais de agressividade biológica ao microscópico e com expressão de receptores hormonais, podem ser poupadas da quimioterapia, mas se beneficiam da hormonioterapia.  Pacientes com expressão forte da proteína HER2 devem utilizar a terapia anti-Her2 para reduzir o risco de recorrência da doença.  Pacientes com tumores negativos para receptores hormonais e proteína HER2 em geral necessitam de quimioterapia.  A correta avaliação destas proteínas depende de amostras bem preservadas, adequadamente fixadas. Em suma, o combate ao câncer parte de um bom trabalho do patologista.

Depois de alguns dias, Paula recebeu a ligação do laboratório informando que seu laudo estava disponível para a retirada. Ela teve que juntar todo seu autocontrole para evitar “espiar” o resultado e buscar auxílio no “Dr. Google”. No dia seguinte, com o laudo em mãos, ela retornou ao médico para sua consulta, ainda mais nervosa e apreensiva. Após a abertura do laudo, o médico começou a ler as informações e pôde transmitir o diagnóstico a Paula. Ela tinha um carcinoma tubular, um tipo de câncer.

Antes mesmo de o médico ter tempo de explicar a doença, Paula já começou a chorar e a fazer perguntas. Ela queria saber de tudo, se iria morrer, se precisaria retirar seu seio e se perderia seus cabelos no tratamento. Por mais que já tivesse pesquisado sobre a Patologia e as etapas que passaria a biópsia e os possíveis diagnósticos, ela ficou muito assustada com o resultado.

Antes de responder todos esses questionamentos, o médico explicou a ela que carcinoma tubular é um subtipo de câncer de mama de comportamento menos agressivo, sem a necessidade de quimioterapia e retirada total da mama e que a maioria das pacientes com diagnóstico como o dela ficam curadas. Estas informações a deixaram mais aliviada.

Na biópsia, o médico patologista submeteu o tumor de Paula a um estudo chamado imunohistoquímica, que utiliza anticorpos para localizar proteínas específicas nas células. O tumor de Paula mostrou positividade para receptores hormonais de estrógeno e progesterona, ambos hormônios sexuais femininos. O mesmo estudo mostrou que o tumor proliferava a uma taxa bem baixa e que foi descoberto precocemente graças ao autoexame, com poucas probabilidades de originar metástases.

A partir de agora, com as informações do laudo em conjunto com os exames radiológicos que havia sido feito antes, seria definido o plano de tratamento adequado para Paula. O médico optou pela realização da cirurgia para a retirada do tumor e apenas uma região da mama, sem a necessidade da retirada da mama inteira.

Em poucos dias, foi realizada a cirurgia e o nódulo retirado foi novamente examinado pelo médico patologista, que confirmou o diagnóstico de carcinoma tubular e identificou que os gânglios linfáticos da região axilar não apresentavam metástases. Graças a todos os dados fornecidos pelo exame anatomopatológico, Paula não necessitou realizar quimioterapia, complementou seu tratamento somente com radioterapia e um medicamento que inibe os hormônios femininos, em virtude do resultado que havia sido encontrado. Ela seguiu com o acompanhamento médico até o fim do tratamento, quando foi considerada curada.

 

 

A história de Paula é fictícia, mas situações como esta ocorrem com milhares de pacientes diariamente no Brasil e no mundo. Em todas elas, o médico patologista e o exame anatomopatológico têm um papel fundamental no diagnóstico e na definição dos tratamentos do câncer e de várias outras doenças.

Fontes:

Dr. Victor Piana de Andrade – patologista, diretor médico do A.C. Camargo Cancer Center e coordenador do PICQ da SBP.

Dr. Felipe D'Almeida – patologista e secretário da SBP.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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